segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Determinação

"Conto" para Produção Textual. Era inicialmente um romance longo que eu tava matutando sobre como escrever, mas aí surgiu essa 'prova' e acabei condensando MUITA coisa da história, porque o máximo são 30 linhas. Mais a frente coloco um final mais com cara de final e algumas resoluções da história.

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Quando me tornei ministro, ninguém disse que um seqüestro poderia acontecer na corte. Ainda mais que a vitima seria a rainha, esposa de um homem bom e generoso. Devido à minha posição, era amigo fiel e conselheiro do rei. Depois que recebeu a mensagem, naquele domingo chuvoso, ficou praticamente enclausurado em sua câmara, discutindo consigo mesmo o que faria.

Chamou-me ao entardecer e vi seus olhos vermelhos. Havia um bom tempo que conhecia o homem, antes mesmo de tornar-se rei devido à morte do pai. Estava presente em seu casamento, sabia o quando amava a rainha e achava que faria tudo que pudesse para deixá-la segura.

- Não chegou mais nenhuma mensagem? – Se alguém que não conhecesse a tristeza ouvisse sua voz naquele momento entenderia a razão de tanto sofrimento no mundo. Neguei com cabeça, minha voz presa. – Mas... Ah, meu Deus! Como isso foi acontecer? Ela estava segura no jardim, havia guardas, e ela estava com aquela amiga dela... Como fizeram isso?

Antes que eu pudesse abrir a boca para responder, ouvimos batidas na porta que se abriu em seguida. Era um dos servos, com uma bandeja e um pergaminho amassado.

- Majestade. É importante.

O rei levantou-se de um salto, pegou a carta e correu os olhos pelas palavras. Uma vez e depois mais outra.

- Não estão pedindo dinheiro como resgate. Querem que eu abdique. Querem que eu deixe de ser rei.

- Impossível! Você não pode fazer isso.

Ele olhou para mim, seus olhos deixando a tristeza de lado e abraçando a fúria.

- Você não é casado. Não estende que faço qualquer coisa por ela. Mataria se fosse isso que pedissem.

- Tem que haver um jeito de solucionarmos isso. Não precisa abdicar...

- Eu vou abdicar.

Eu não podia contra a vontade de um rei. Ele estava decidido a deixar o trono vago, deixar o seu povo na mão e criar um problema tão grande quando sua esposa raptada. Mas pensando melhor, eu o entendia. Precisava cruzar essa linha, provar que a amava mais do que qualquer coisa.

Quando me dei por conta o rei já fora, atravessara a porta para salvar o amor de sua vida.

sábado, 18 de setembro de 2010

Uma família sem laços de sangue - Prólogo

Homenagem ao Saint Darlan, marco inapagável da minha vida e da Bia, que eu não poderia deixar passar sem algo grandioso. Só falta chegar ao fim.

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Aquela era a rua onde eu vivera quase a minha viva inteira. Era praticamente inabitada, já que estava situada num canto da cidade de Porto, em Portugal, quase que completamente abandonada pelo governo. A praça, hoje sem árvores, estava vazia e coberta por uma camada de neve. Afinal, quem, numa véspera de Natal, estaria na rua, ainda mais naquela, com toda aquela neve? Só mesmo eu. E eu não deveria estar ali. Meus pulmões já não aguentam a escassez de ar e estão lutando sempre por uma nova lufada, limpa e fresca, e, junto com meu coração inconstante – para o qual cada batida é como uma Guerra Fria - mesmo que seja difícil, me mantêm respirando.

Ali no fim da rua há algumas paredes erguidas formando uma grande construção. Ali foi onde morei desde que me considero ‘independente’ e é lá onde pretendo passar meus últimos dias, que não são muitos, eu posso sentir. Aquela construção é um orfanato construído em 1953 pelo governo de Portugal, e eu sou o Diretor.

Lentamente, pois meus pés já não são como quando eu tinha 16 anos, vou voltando pela rua larga, cuidando para não ser pego de surpresa pela neve escorregadia. Ali dentro sim, há vida, amor e calor humano em sua forma mais genuína. Vou morrer orgulhoso sabendo que fiz parte disso, e que contribui bastante para que o Orfanato Saint Darlan seja o que hoje é. Por mais que esteja mal das penas, meus ouvidos ainda funcionam bem – talvez a velhice não tenha chegado com tanta brutalidade para mim... – e captam vozes que vêm de dentro dos altos portões.

É véspera de Natal, bolas! Muitos de nós não somos ligados por laços sanguíneos, mas órfãos e professores formam uma grande família. E no Natal tudo isso é alimentado, assim como a chama de nossa lareira. Nunca vi crianças tão felizes quanto os alunos do Saint Darlan nessa época do ano. Outros ficariam exultantes por não ir às aulas, porque as ruas estão atoladas de neve, ou qualquer outra baboseira. Mas aqui, creio eu que todos desejamos secretamente a chegada do Natal. É ele que nos dá esperança para o novo ano que aponta no horizonte; esperança para cada criança de ser adotada por uma família – um pai, uma mãe, talvez irmãos e até um cachorro – e ser amada por ela de um jeito que sua família biológica não a amou.

Por isso sorri ao ouvir aquelas vozes altas e cantantes, exclamando alguma coisa que eu não conseguia entender.

Os portões estavam destrancados, então simplesmente os abri e entrei. Havíamos conquistado a confiança da grande maioria das crianças das quais cuidávamos e eu não sentia mais necessidade de trancá-los com tanta freqüência. Lembro-me de várias noites em que saí escondido do orfanato, graças a um garoto ainda mais encrenqueiro do que eu que havia afanado as chaves e fez cópia de cada uma e as escondia em algum canto discreto perto da porta em questão.

No pátio, ninguém, como eu previa. As salas do orfanato certamente estavam bem aquecidas e aquela perspectiva era realmente convidativa. Apressei meus passos ao longo do caminho que ligava os portões até a entrada principal. Em cada lado havia um dormitório, um para meninas e outro para meninos. Suas estruturas de dois andares alongadas abrigavam muitas camas e ali era o único local que eu mesmo exigia privacidade para os alunos. Pelo pouco que consegui ver àquela distancia não parecia haver muita gente ali dentro.

Finalmente, as grandes portas da entrada principal.

Não sei se é apenas comigo, mas elas costumam emperrar justo quando tento abri-las. Prefiro não pensar na hipótese de que não tenho mais força para sequer abrir uma porta e considerar que elas apenas não vão com a minha cara. Contudo, até as portas estavam em espírito natalino e abriram-se com um rangido breve e típico.

Nunca dávamos aulas nas tardes de véspera de Natal. Os garotos já passavam o dia inteiro com aulas, e ainda moravam ali... Alguns anos depois de eu ter me tornado diretor, nós da administração revogamos as aulas da véspera e também as aulas no período da manhã do dia vinte e seis. Assim, logo que abri as portas da entrada, um fluxo de vozes me atingiu em cheio, altas, alegres e contagiantes, espalhadas pelo hall, pela sala de estar e quem sabe até mesmo na cozinha.

Poucos perceberam minha entrada discreta, alguns cumprimentaram com a cabeça enquanto passava por eles. Um bando de crianças veio até mim e deu-me um abraço conjunto que me levou às alturas! E também quase ao chão, quando me soltaram e perdi o equilíbrio sobre as pernas fracas. Os mais novatos ali desejavam um “Obrigado por tudo, senhor”, mas os meninos da casa diziam um “Feliz Natal, tio Gui!” delicioso de se ouvir. Eu deixava que me chamassem de ‘tio’, pois quando você chega aos 79 anos já não liga muito para como as pessoas te chamam.

E eu gostava que me chamassem de tio Gui.

- Senhor Cardoso... – e junto àquelas palavras, senti uma mão pousando levemente sobre meu ombro. (Uma coisa que é absolutamente desagradável sobre a velhice é que as pessoas parecem ter medo de te tocar. Pode ser que as pessoas achem que um único gesto pode nos aborrecer, ou tenham nojo do toque, como se ficar velho fosse uma doença contagiosa reservada apenas para alguns. Talvez as pessoas tenham medo que, ao nos tocar, desencadeiem um processo em nosso corpo e ele nos leve à morte. Talvez tenham medo que um simples toque possa nos levar ao chão, nossos ossos leves e fracos impulsionados por uma força praticamente insignificante... Não sei. Depois que passei dos sessenta anos minha cabeça foi ocupada por várias teorias.) Virei-me e vi um dos meus professores com um pequeno sorriso nos lábios. – Feliz Natal, senhor.

E abraçou-me.

Seu nome era Trevor e lecionava gramática, por isso era abominado por vários alunos. Mas não por mim. Não havia necessidade de ser tão formal afinal Trevor era um bom e velho amigo meu – mesmo que ele fosse uns trinta anos mais novo do que eu – mas entendi sua formalidade como uma forma de demonstrar respeito.

- Ah, meu amigo! Feliz Natal para você também!

Trocamos cumprimentos e logo Trevor foi deixando de lado seu protocolo memorizado.

- Você sabe onde está Amanda? – perguntei-lhe após uma breve conversa.

- Na sala dos professores. Recebemos uma ligação do governo. Sabrina está com ela, ajudando com alguns papéis.

- Obrigado, meu irmão. Nos vemos na ceia.

Sabrina.

Sorri mentalmente apenas lembrando-me de seu olhar brilhante. Anos atrás eu não poderia imaginar o quanto gostaria daquela garota. Eu podia odiá-la simplesmente por sua família, mas na vida você aprende que não vale levar o ódio muito além da segunda geração. Certamente eu só não sentia mais repulsa pela avó de Sabrina do que pela minha própria mãe biológica.

Se Amanda estava com Sabrina, então tudo estava bem.

Por sorte, a sala dos professores era ali no térreo. Tudo que precisava fazer era me arrastar até a porta por entre aquele mundo de gente atulhada nos corredores. Nessas épocas sempre parecia que abrigávamos muito mais órfãos. Eu podia apostar que, se algum fiscal visse tomaria providencias para que o número real fosse levantado, apenas para ter certeza de que não estávamos superlotados. Apesar de que, depois de alguns acontecimentos que vou narrar, eu tinha o maior esmero com cada detalhe da lei que nos sustentava.

Então arrastei meus pés. Eu sempre arrastava meus pés, já que não conseguia dobrar os joelhos perfeitamente, impulsionar uma perna para frente e empurrar meu corpo com a outra que fica para trás. E arrastando os pés cheguei à porta da sala dos professores. Bati três vezes com os nós de meus dedos enrugados, esperei alguns segundos e abri a porta. Torrentes de memórias voltaram a minha mente; todos os tipos de memórias que eu tinha daquela porta; felizes e tristes, raivosas ou serenas, entrando e saindo dela; grandes decisões que foram tomadas ali dentro. Tantos anos, tantas pessoas, tantos sentimentos; tudo como num flashback, como num livro, quando uma pessoa está morrendo e um filme de sua vida passa diante de seus olhos.

Mas minha vida não era um livro e eu não ia morrer. Não ainda.

Sabrina estava vindo em direção à porta quando a abri e precipitei-me para dentro.

- Senhor Gui, que bom que voltou! Já estávamos ficando preocupadas. – disse ela, com um sorriso que despertou o meu. Para minha sorte, tossi também e suas feições tornaram-se sérias.

- Estou bem, Sabrina. – Adiantei-me antes que ela perguntasse como estava meu pulmão. – Trevor me disse que recebemos uma ligação do governo...

Ela pareceu aceitar que eu estava ‘bem’ e ajudou-me a ir até a mesa principal.

- Não é nada de mais. Só ligaram para saber quando vamos entregar o relatório anual.

- E o que você disse?

- Que semana que vem, no máximo na outra segunda-feira, ele estaria pronto.

- Então teremos uma vistoria, provavelmente.

- Sim, senhor. Mas não temos o que temer, não é?

- Não mesmo.

Sabrina era muito eficiente.

Minha atenção foi tomada pela cabeça que se virou na minha direção assim que contornei a mesa principal. Era Amanda, com seus fios loiros misturados aos fios brancos, quase imperceptíveis. Eu a invejava, pois a sua idade não ficava estampada em placas de neon por todo o seu corpo. Amanda é minha esposa há uns 50 anos. Não sei, deve ser algo assim. Não estou a fim de fazer as contas agora no fim da vida. Vivi ao seu lado, dei-lhe apoio quando precisou, amei-a, ainda a amo e isso é tudo que importa.

- Guilherme... Já te disse para não ir à rua com esse tempo. – disse ela, com uma voz doce, porém um leve tom recriminador.

- Desculpe. Mas realmente, não aguentava mais ficar naquele quarto. Eu ia surtar se não fizesse alguma coisa.

Ela sorriu. Ela entendia. A idade também já não lhe permitia todos os movimentos, mas era absolutamente mais ativa do que eu.

- Tudo bem, mas, da próxima vez, me chame quando quiser dar uma volta.

- Tudo bem, tudo bem.

Eu parecia e muito com um velho resmungão, mas, no fundo, Amanda estava certa. Se meu coração entrasse em acordo com meu pulmão e eles simplesmente decidissem começar uma greve, eu não teria chance nem de gritar “Pudim!”.

Sabrina estava quieta, sentada em uma cadeira ao lado de Amanda, concentrada transcrevendo anotações de um papel para outro. Não prestava atenção em nossa conversa, pois essa era a educação que havíamos lhe dado. Inegavelmente, aquelas eram as pessoas mais importantes para minha vida. Havia outras, claro, mas Amanda e Sabrina eram quem cuidava para que minha vida se prolongasse, dia após dia, do nascer ao pôr do sol e durante toda a noite entre eles.

Eu sabia que elas deviam estar preparadas para quando eu me fosse de vez para outro lado. Amanda certamente sentiria muito minha falta. Já estou me conformando que vou ter que partir logo e penso que nossa vida não poderia ter sido melhor. Não me arrependo de nada, não acho que faria algo diferente se tivesse a chance. As coisas são escritas à caneta e não temos capacidade de apagá-las. Amanda e Sabrina - na verdade não somente elas - sofreriam e isso eu não podia mudar.

Afinal, não é todo dia que se cura um câncer.


Capítulo Um

domingo, 21 de março de 2010

Jenny


A vida de Jenny é perfeita. Ela tem pais muito bons, mora num lugar maravilhoso e tem tudo o que quer. Jenny tem 12 anos, e é como uma garota de doze anos deveria ser: gosta de ler livros, de brincar com as folhas das árvores que caem no outono e como as borboletas da primavera. Jenny queria ser criança para sempre.
Mas tudo que é bom acaba um dia. E tudo fica sempre pior quando encontramos nossos pais mortos dentro de sua própria casa.
Traumaticamente, é isso que Jenny encontra quando volta de sua aula num dia de inverno. Frio como um dia da estação, seus pais foram brutal e misteriosamente assassinados. E para Jenny, isso parece o fim. Não mais lugar para ela na Irlanda, onde morou a vida inteira e ela precisa mudar-se para Inglaterra, com um tio que mal conhece.
Sorte ou azar, Jenny não sabe, mas acaba indo morar num lugar incrível, sobre o qual ela tinha ideia muito errônea. Com tanta coisa boa ao seu redor, Jenny não percebe alguns segredos ao seu redor, que, apenas com o tempo, ela irá descobrir. Segredos obscuros que vão atormentar seus sonhos até que ela descubra a verdade.
E nessa jornada, Jenny precisará ir sozinha.

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Observação: Começei, não tenho absolutamente nenhuma ideia para essa história, então talvez ela saia, mas demore. Deseje-me criatividade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na estrada para São Francisco - Prólogo

Há dez anos eu nem se quer cogitaria fazer uma besteira como essa que estou fazendo. Não que eu fosse o cara mais sensato do mundo, mas geralmente tomava atitudes corretas e pensadas. Então acho que pegar um carro e rodar milhares de quilômetros definitivamente não esta na minha lista que coisas normais.
Meu nome é Noah Schwartz. No exato momento estou numa revendedora de carros, gastando todo o dinheiro que acabei de receber e os trocados que economizei nos últimos tempos, falando com um cara que não muito gentilmente veio atender o cliente que chegou um pouco depois do expediente; cliente que por acaso sou eu.
- Pra o que o senhor disse que queria o carro mesmo? – perguntou o vendedor. Era um senhor quase, aparentava uns 50 anos, dos quais menos metade passara vendendo carros. Tinha alguns fios brancos em seu cabelo castanho escuro e olhos da mesma cor, que, quando olhei para eles, pareceram faiscar como se dissessem: “Seu moleque, porque tinha que vir justo hoje, que acabei de ganhar aumento e ia tirar umas merecidas férias no Caribe?!”. Mal sabia ele que nossas situações eram completamente opostas.
- Eu não disse. – Sorri por dentro. Seria engraçado irritar mais aquele cara? Davidson estava escrito em um pequeno crachá, preso ao bolso próximo a lapela de sua camisa. Decidi que não estava afim; era uma decisão pensada e sensata... Algo um tanto raro em mim naquele dia. – Vou fazer uma viagem longa.
Davidson então finalmente se moveu. Estávamos parados há algum tempo ainda na entrada da loja, próximos aos carros mais novos e ele não parecia muito entusiasmado em sair pelo estacionamento da revendedora anunciando, talvez, pela milionésima vez naquele dia os atributos de cada carro ali. Mas se não saíssemos dali havia apenas duas opções: a) não haveria compra porque eu não tinha dinheiro suficiente ou b) eu cometeria mais uma loucura e compraria aquela Pathfinder que está olhando para mim agora mesmo de uma forma muito tentadora e me lascaria até o fim da vida para pagá-la. Eu não tinha condições de comprar uma daquelas máquinas, mas todo cara que se preze tem uma queda por carros modernos, grandes e (principalmente) caros. Porque se você desfila por aí com um carro bem caro por aí quer dizer que você é rico e tem bastante dinheiro, um emprego glorioso e estável e (talvez, mas não certamente) muita virilidade. E disso as mulheres gostam. Mas eu não estava querendo sair pela Quinta Avenida chamando a atenção de mulheres.
Andamos alguns metros até os usados e antigos lá no fim do corredor formado pelos automóveis. Àquilo era o que eu podia me permitir. Tinha uma quantia exata para gastar com o carro e ainda havia todas as despesas de viagem. A Pathfinder teria que esperar.
- Bom, você pode escolher o que quiser. Nesse tipo de carro os preços não variam muito, já que nenhum deles foi fabricado depois de 1985. Os motores estão todos em ótimo estado, rodas novas, tudo limpinho e documentos atualizados.
Ótimo. Era assim que eu estava queria que fosse; tudo certo para apenas chegar ali, entregar o dinheiro e sair na hora com o carro. Sem muita burocracia.
Então eu somente precisava olhar os carros e escolher um... A tarefa que deveria ser fácil, já que não havia muitas opções, mas... Por Deus. Eu precisei desviar meu olhar para que a imagem do primeiro auto da fileira de usados não ficasse gravada no meu cérebro. Sua pintura estava tão acabada que quase não dava para notar o azul marinho debaixo da ferrugem. Não era de se assustar que custasse só mil e seiscentos dólares. Mas, fiquei mais calmo ao olhar os outros carros. Estavam visivelmente mais bem cuidados, com pinturas brilhantes e aros reluzentes. Perguntei-me quem compraria aquele Fusca amarelo mostarda por quatro mil dólares.
Continuei olhando os carros e apenas dois a frente do tal Fusca encontrei um Impala 1985 cinza fosco bem ajeitado. Tinha quatro portas seu estofado estava perfeito e havia até mesmo um painel digital que um dono teve o cuidado de colocar. Melhor de tudo: cinco mil e quinhentos dólares com o tanque cheio à vista. E por acaso, eu tinha aquela quantia. O tal Davidson percebeu meu interesse no Impala e pareceu ficar aliviado. Sua venda tinha sido bem fácil.
- Esse Impala está aqui já tem uns dias. O dono morreu, era um senhor já, e a família não quis o carro.
Claro que não queriam, pensei eu. Quem em sã consciência iria querer um carro de 1985 nos dias de hoje?
Eu queria.
Mas meu caso é diferente.
E talvez o carro esteja só esperando por mim...
- Gostei dele – virei-me para falar com o Davidson, que agora tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios. – Eu pago à vista.
- À vista?!
- É. À vista.
Tive que morder a língua para conter minha vontade de dizer ao Davidson que meu dinheiro não é falso e que meu cheque tem fundos sim, mas estou começando a controlar minha insensatez. Mas não tinha como desfazer a insensatez de comprar um carro e cruzar os Estados Unidos de uma ponta à outra.
Fomos até uma sala dentro da loja onde Davidson começou a preparar seus papéis. Ele parecia mais feliz agora. Ia ganhar uma comissão gorda (não tão gorda quanto se eu tivesse comprado a Pathfinder), mas se ele ia passar uns dias cochilando numa rede à sombra de um coqueiro no Caribe aquilo devia ser suficiente.

Eu parei ao lado do meu mais novo carro e fiz questão de olhar para meu relógio no pulso. Eram 6:37. E esta era uma sensação boa, sabe. Quando você finalmente tem algo que desejou bastante por um longo tempo. Abri a porta e sentei no banco do motorista. Ele era macio, mas não tão macio a ponto de você afundar quando senta nele; apenas comprimiu-se sobre o meu peso. Dei uns pulinhos, simulando lombadas e curvas imaginárias, só para testar sua estabilidade e ela me pareceu razoável. Então coloquei a chave na ignição.
Se o carro não funcionasse, o que aconteceria? Eles trocariam? Dariam-me aquela Pathfinder como consolação? Devolveriam o dinheiro ou o Davidson diria: “Se ferre”? Tudo estava visivelmente bem cuidado, mas ainda era um carro de 1985! Porém, o motor roncou ruidosamente quando girei a chave. Devagar, claro, para não estragá-lo de vez e não levar um susto se ele não pegasse.
Fechei a porta e tornei a abri-la de novo, só para me certificar de que não teria problemas com ela e ficaria trancado dentro do carro. Eu tinha certeza que a porta daquele carrinho detonado no inicio da fileira de usados cairia pelo próprio peso se alguém ao menos conseguisse abri-la.
Enfim, coloquei o carro em movimento. Tudo tinha sido bem mais fácil do que eu pensava e como queria. Saí da revendedora sem um rumo certo. Queria experimentar o carro que agora podia chamar de meu. Dessa forma, aquelas eram as primeiras milhas de muitas que eu andaria com o Impala. Saí da revendedora, no Kings, e sem pressa dirigi até a casa de meus pais, no Brooklyn.
Talvez possa parecer meio antiquado, morar com os pais no Brooklyn. Mas eu não precisava pagar contas e mais contas, como teria que fazer caso morasse sozinho. Ali eu apenas ajudava com as despesas, tinha meu quarto e estava perfeitamente satisfeito.
Eu acho.
Quando cheguei à rua de meus pais, diminui a velocidade. Agora que já tinha há feito a besteira não podia desfazê-la. Mas agora estava pensando o quando estúpido eu tinha sido.
Bom, já que eu não podia reverter, teria que encarar. Encarar meu pai.
Engoli em seco e deixei o carro no acostamento em frente à casa com tijolos à vista de dois andares onde tinha vivido minha vida toda para então dar os primeiros passos de uma longa jornada.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Passos contados, contos passados



A minha vida inteira - como se eu tivesse vida - levei fulaninhos dessa pra melhor. Os mais velhinhos ou recém-chegados ao planeta azul ou até mesmo jovens que não deveriam ter ataques cardíacos. Os que sobrevivem estão aí, mais de seis bilhões, os quais vou levando aos poucos, mas... que Morte miserável!, levo um e chegam mais dez! Se eu tivesse minha família cuidaria para que cada um tivesse no máximo um herdeiro para não dar mais trabalho a esta pobre coitada que vos fala.
Houve uma vez, um homem muito rico, uma mulher muito feliz, um despenhadeiro na estrada linear. O Fim.
Quem muito quer, nada têm, aprendi isso ao longo da minha redundante existência. Por que seria diferente? A doença do mundo; trocentos bolos de verdinhas o fizeram dar a última marcha. Em passos contados.

Vou lhe contar a história.

Aquele ser sem valor à vida chegou atrasado no trabalho. De novo. Uma terceira vez e o colocariam pra fora. (Talvez não precisasse aguardar tanto. Naquela tarde estaria no fundo do poço. Literalmente.) Mesmo que ocupasse um alto cargo, ainda era submisso, e isso não parecia o agradar. Era quinta-feira e faziam 33°C. Qualquer um suava em bicas por baixo dos caros ternos alinhados. E lá vinha o gordão! Parecia um elefante encapsulado em um terno cinza e apenas reduzido a um tamanho suficiente para se espremer num elevador espaçoso.

E como tinha cara de elefante! Até o chão parecia tremer aos pesados passos daquela criatura deslocada. Por um momento receou que o prédio de cinquenta andares fosse a baixo.

O que o Elefante disse não é importante, ele sequer ouviu direito. Ali havia vários compartimentos e mais seres pensantes explodiam os cérebros obsoletos tentando fabricar idéias originais. Ele agradecia por não precisar se matar ali (haha!).

Não... Aquela portinha bem ornamentada no fim do corredor era todinha sua. Se quisesse colocar um ar condicionado, mover um móvel, fazer um maldito furo, tinha toda a liberdade.

Espere. Sabe, eu realmente não entendo... o Mundo até parece um lugar legal. As pessoas que vivem nele – e você está incluso -, na minha opinião, é que o tornam chato e fedido e, ao seu ponto de vista, injusto. Se vocês não quisessem morrer para querer ir prum lugar melhor eu nem precisaria estar aqui! E sabe de uma coisa... a imensidão azul acima da sua cabeça nem é tão interessante assim...

Ah , sim! Ele. Aquela sala era seu paraíso no planetinha da água (adoro essas coisas!). Exceto quando tinha mais alguém ali.

Infelizmente, foi exatamente o que ele encontrou.

Como ele queria dar umas bofetadas no rostinho de porcelana da vadia da sua mulher! Mas ela parecia um pouco ocupada se esfregando com outro cara na sua escrivaninha de mogno importada da Índia.

Você sabe o que vem depois. A Lei de Murphy é tão previsível...

É claro que ele saiu dali furioso, é claro que o Elefante o demitiu, é claro que bateu o carro, é claro que sua família acabara.

Ele era rico, mas eu já disso isso. Mas seu dinheiro não apagararia memórias, não engoliria sapos, não compraria amor. Nem a Morte. Posso lhe dar isso, na verdade, e sem custos!

Então, a quem você prefere; a vida tortuosa e cara ou a morte fácil e de graça?

Eu podia ouvir seus pensamentos e o tiritar das correntes enquanto ele dava seus últimos passos. Eram poucos e logo todo o barulho cessaria. Ele nem estava pensando em gritar (e nem poderia) quando a água morna enchesse sua garganta e penetrasse em seus pulmões, expulsando qualquer sopro de vida. Não demorou muito... Até que seus pés tocaram o ar e depois mais nada. Até de olhos fechados ele já estava!, então não precisou me ver recolhendo sua alma vazia e o corpo inchado e verde da água gelada na mesma noite.

Ah, morte miseravél.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O jovem garotinho e a velha senhora


Havia uma venha senhora - há algum tempo já falecida - que sentava-se sempre a tardinha nas escadas se sua casa geminada. Aparentava cerca de 70 anos, as rugas profundas lhe incitavam experiência e carregava consigo dois pedaços de madeira escura arredondada que prendiam os tecidos os quais bordava. Nunca havia furado os dedos com a fina agulha.
Ela ficava sentadas nos degraus, cumprimenta seus conhecidos que voltavam da rotina moderna corrida quando estes tinham tempo. Algumas raras vezes, alguém novo, um novo amigo, parava e lhe falava algo. Também eram rápidos.
- Boa tarde - eles diziam. Perguntavam seu nome, se fazia bordados para vender e se iam na velocidade dos carros. Ela nunca os respondia
Mas havia um; uma criança. Depois que a correrria aliviava, quando o sol já começava a alcançar a linha do horizonte, quem alcançava sua casa era um garotinho. Usava o uniforme do colégio (nas quintas sua camisa estava sempre mais suja), a mochila nas costas. Ela não o vira acompanhado uma vez sequer.
Aquela era uma quinta-feira.
Como costumeiramente, a senhora estava em seus degraus, seu bordado já estava quase pronto. Dava os pontos finais de uma cena de pôr-do-sol no oceano com a luz amarelada de seu próprio pôr-do-sol.
O garotinho aponto na esquinha. Seus passos eram apressados; quase corria. A mochila sacolejava em suas costas; os pés quase tropeçaram numa pedrinha no caminho; um sorriso era reprimido em seus lábios. A verdade era que ele queria chegar o mais cedo possível à casa daquela senhora misteriosa; que nem sequer lhe dissera seu nome.
Ela estava lá. Não era novidade. Assim que o viu, fitou-o com seus olhinhos verdes pequeninhos e sorriu segundos depois.
- Olá - o garotinho sorriu de volta, mas conseguindo mais o conter. Chegou mais próximo, arfante e observou o bordado da senhora. - É muito bonito...
Com os últimos raios de sol vieram os pontos derradeiros no tecido. Ela ergueu seus olhos para ele. O garoto sentiu vontade de piscar, mas não conseguia deixar de mergulhar no verde dos olhos da senhora. Quando tudo se tornou mais escuro, os olhos dela perderam o brilho. Ela tirou o tecido devagar das madeiras arredondadas e estendeu ao garoto. Ele não conseguiu deixar de notar que suas mãos tremiam levemente.
- Pra mim...?
Hesitante, o garotinho pegou o tecido, observando os pontos perfeitamente acabados. A senhora sorriu e tateou o degrau a procura de algo. Estendeu-lhe a mão movamente e, aninhado entre as rugas de sua palma, estava um pequeno botão dourado, que o garoto também pegou. Houve um silêncio profundo. Não haviam nem carros na rua, nem gritos, nem ninguém além daquele jovem garotinho e a velha senhora.
- Eu... já ta tarde... preciso ir... - Deu dois passos pra trás - Obrigado.
E foi-se, após olhar pra a casa geminada espremida entre tantas outras. A senhora já não estava mais lá.

Dois meses se passaram, até que uma carta chegou à uma casa grande, moderna e de uma família rica. Intimava um garoto cuja descrição física combinava perfeitamente com o filho único do casal dono de tal casa. Dizia que era esperado para receber uma herança deixada por um testamento de uma senhora. Quando os pais o levaram, o garoto descobriu uma pequena foto, ao qual reconheceu como a senhora dos bordados.
A sua herança?
Ao lado da foto havia uma lata de metal claro. Era pesada. Ao abrí-la descobriu uma quantidade incrível de botões. Dentre milhares, reconheceu vários outros botões dourados.
Segundo o que o disseram, eram os únicos bens da senhora que morrera de causas naturais.